Roma de Prata

romamor09

Algures em Roma
© Maria Clementina

“Ponho-me a olhar as fotografias. Conheço as caras e não as conheço, congeladas a meio de uma expressão com qualquer coisa de incompleto nelas. Não é que lhes falte vida, têm vida, falta-lhes uma parte do que são, no caso de lhes tocar toco papel, não carne e ainda por cima, em algumas delas, com um rectângulo de vidro a separar-nos. Só os mortos estão inteiros nos retratos, porque se tornaram retratos, são retratos, e o que guardo na memória vai-se desarticulando, diluindo, deixando de ter forma: gestos, atitudes, cheiros que se desvanecem lentamente como o perfume nos frascos vazios que conservam uma vaga aura adocicada de flores.

No caso dos vivos encontro fragmentos deles que me não chegam nem consolam. Olham-me desprovidos de voz e de espessura. Digo-lhes o nome e não respondem.
Digo
– Tu
e observas-me indiferente, sempre com os mesmos brincos, o mesmo penteado, a mesma blusa, a mesma idade que recusa os anos. Digo
– Tu
e nenhuma mão chega à minha cara, não respiras contra mim, não me procuras, aprisionada na moldura. Porque é que o teu peito não respira? Porque é que as tuas pernas não se enrolam nas minhas? Porque não sais daí? Será o mesmo, o teu nome? Ou será que foi o meu nome a mudar? Perguntas, perguntas. Cheio de perguntas sempre.
(…) Retratos.
Nós de pé nos retratos e portanto vivos. Conheço as caras e não as conheço. Congeladas a meio de uma expressão com qualquer coisa de incompleto nelas. Olham-me desprovidas de voz e de espessura. Não me sinto triste. Palavra de honra que não me sinto triste. Sentado a esta mesa vejo um avião chegar. E, de súbito, uma alegria inexplicável: acho que é por ter corpo e estar vivo.Corrijo: tenho a certeza que é por ter corpo e estar vivo. E o meu coração ou o despertador (um deles)

a bater, a bater. “

António Lobo Antunes, Retratos

*Roma – cidade invertida do que me move e comove*

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Tratado de Prata

“Julgamos que nenhum dos leitores ignora, que n’este paiz a photographia é conhecida, pela maior parte como o meio mechanico de fazer retratos e paizagens, e considerada como um inofensivo brinquedo para os amadores, menos prejudicial ao paiz, do que cuidar d’essa politica pessoal, que serve de pasto aos inuteis d’esta terra. […]

As collecções completas de monumentos, antiguidades, obras d’arte, as cópias das mil riquezas guardadas nos museus, derramariam uma instrução geral, que aproveitaria em particular ao artista. Quando se tem escripto sobre os costumes dos differentes povos, em que cada author e cada desenhador, umas vezes por más apreciações, outras por falsas informações discordam tanto, a todas essas duvidas elucidaria a photographia com o seu irrecusavel testemunho; e a ethnografia, não sujeita ao capricho de qualquer, facilitaria a história dos povos. A photo-esculptura é já hoje mais uma feliz applicação da photographia. […]

Dá ao paiz, e ao governo, as informações mais exactas do estado das colonias mais distantes, das suas construções, da sua cultura, produções, recursos e necessidades; evitando longos, inexactos, e inintelligiveis relatórios.

Reproduz as festas nacionaes, as formaturas militares, os homens eminentes da epocha, auxilia a polícia nas suas pesquizas, e apesar de ser a applicação ao retrato nos bilhetes de visita, a menos importante pelas suas consequências, é hoje um ramo de industria espantosamente desenvolvido.

Esta ultima consideração, que áquelles, que só conhecem a photographia pelo retrato, parecerá estranha, é uma prova, de que a arte se affastou do bom caminho, e que só os governos lhe podem dar hoje direcção, d’onde  não devera ter-se desviado.

É a photographia o meio rapido e preciso de communicar pelo desenho, no seculo em que a telegraphia electrica é um dos meios de communicar pela palavra”

Tratado de Photographia 1866, José António Bentes (1837-1912)

José António Bentes dirigiu a cadeira de Photographia, criada em 1864 aquando da reforma da Escola do Exército, pelo ministro da guerra Marquez de Sá da Bandeira

in Uma História de Fotografia, António Sena

As informações encontradas sobre J. A. Bentes e os seus escritos foram escassas – por preguiça, cansaço ou inexistência – fica a dúvida; e fica também a vontade de encontrar, caso haja, algum exemplar perdido deste tratado e do manual de photographia de 1864, também ele de J. A. Bentes.

Pessoas de Prata – Wenceslau Cifka

Wenceslau Cifka, daguerreótipo, A Rua do Palácio Real da Pena tirada do lado sul, 1848. Colecção Nacional de Fotografia © Centro Português de Fotografia

 

Hoje o acordar foi em Sintra, com vista para o Palácio da Pena.

A descoberta deste passeio foi o checo Wenceslau Cifka (1811-1883) – pioneiro da actividade daguerreotipista em Portugal, abriu um dos primeiros estúdios fotográficos, em Lisboa. Passou pela Rua Direita das Necessidades, Rua Nova dos Mártires, Calçada das Necessidades e Calçada da Pampulha – ironia ou não, do encalço que lhe fiz, só descobri coordenadas para estas duas últimas moradas – resta alargar o passeio a Lisboa e palmilhar pela zona dos Prazeres e da Lapa para poder ver o que é feito de cada uma destas calçadas.

Sabe-se que Cifka era polivalente e que não se limitava à fotografia como meio de expressão – mais informações sobre Wenceslau Cifka aqui, aqui e ainda aqui.

Ditos de Prata

“De todas as descobertas uteis, a Photographia é sem duvida, uma das mais vastas e mais fecundas.

Os immortaes Newton e Galileo não se aproximam sequer do sonho do fantastico Hoffmann, que desejava vêr a imagem da sua amante fixada sôbre o seu espelho!

Esta sciencia, que exerce nos dominios da arte uma influencia immediata e pronfunda, offerece aos artistas inesgotaveis recursos imprevistos.

Vêde como o Photographo se apodera, com a velocidade do pensamento, da expressão, a mais caracteristica, a mais fugitiva! Um segundo lhe basta para reproduzir o sorriso ou a pequena nuvem que, affectando o pensamento, entristece ou anima a physionomia!!

Noate o raio intelligente que o anima quando o seu modêlo vae fallar – assim é que o methodo de reproduzir a expressão se torna para nós o sublime da arte.

Quem se conservará pois indifferente em presença do desenvolvimento de tão extraordinarios phenomenos, quando se pensar que com o auxílio de duas unicas substancias chimicas, se póde obter com a mais exacta precisão, em caracteres indeleveis, e em proporções determinadas, segundo o nosso desejo, uma paisagem, um monumento, as feições da pessoa que amâmos? […]

Phantasia.

Um de nossos collegas imaginou um dia collocar o seu retrato sobre os seus bilhetes de visita, em logar do nome. Esta lembrança engenhosa achou tantos imitadores, que muitos artistas dos mais distinctos seguiram o seu exemplo.

Julgar-se-ha que se chegassem a simplificar mais as manipulações e torna-las menos dispendiosas, não seria mais conveniente applicar este systema até mesmo nas marcas da roupa, das licenças, etc., substituindo pelo retrato do pretendente ou agraciado esses signaes ridiculos à força da banalidade: – Olhos pequenos – nariz comprido – bocca grande – barba saliente – rosto, etc? – suppondo que esta nossa idéa esteja ainda longe de receber applicação, comtudo achâmos grande prazer em levar ao conhecimento de nossas amaveis leitoras, que se tem obtido reproduzir flores, paisagens e retratos photographicos sobre tafetá, setim, etc., rivalisando victoriosamente com as melhores estampagens de Frandres e da Alsácia”

P. K. Corentin

“Resumo Histórico da Photographia desde a origem até hoje”

in Uma História de Fotografia de António Sena

E assim começa a minha longa odisseia, sem dia e hora marcada para o regresso, mas de malas cheias e vontade de conhecer cada canto e recanto.

Contos de Prata – Ele e Ela, uma história proibida

“Ela queria-o, gostava dele como de chocolate, derretia-se com a voz rouca, de caramelo, perdia-se no olhar dominador que só transmitia meiguice.

Ele achava-lhe piada, mas não o queria assumir, nem mesmo perante os seus próprios olhos meigos, dominadores. Tinha medo e o medo é uma bruxa má, vestida de preto, cabelo desgrenhado e verruga na ponta do nariz.

Ela sabia-o…e era um saber que gritava amor, pulava no peito e fazia-a viver – era com estas contracções de amor que ela respirava, que ela falava, que ela andava.

Ele, enfeitiçado pela bruxa má, não cria nestes espasmos, não se achava digno deles sequer, considerava-os capricho, capricho de menina. Menina que ela era; eles, os caprichos, é que não eram…”

Leituras de Prata

Arte Photographica - 1884

Arte Photographica – 1884

Leituras do sofá – Arte Photographica revista portuguesa publicada entre 1884 e 1885 no Porto – o assunto é de prata e quem o escreve não lhe fica atrás.

“Photographia Moderna com o concurso dos nossos mais distinctos photographos amadores:

D. Margarida Relvas, Carlos Relvas, Eduardo Alves, Constantino Paes, A. Ramos Pinto, Rebello Valente, Joaquim Basto, Anthero Aranjo, Nuno Salgueiro, João S. Romão, etc.”

As palavras introdutórias a este manual de arte não podiam ser mais elucidativas e, para não correr o risco de não estar ao nível delas, transcrevo:

“Summario:

Duas palavras – Formulário – Doze lições de chimica photographica elementar – Apontamentos para a photographia instantanea – A exposição da sociedade photographica de Londres – Jornaes Photographicos – Bibliographia geral – Revista dos jornaes photographicos – Specimens”

Hora de sofá…