Tratado de Prata

“Julgamos que nenhum dos leitores ignora, que n’este paiz a photographia é conhecida, pela maior parte como o meio mechanico de fazer retratos e paizagens, e considerada como um inofensivo brinquedo para os amadores, menos prejudicial ao paiz, do que cuidar d’essa politica pessoal, que serve de pasto aos inuteis d’esta terra. […]

As collecções completas de monumentos, antiguidades, obras d’arte, as cópias das mil riquezas guardadas nos museus, derramariam uma instrução geral, que aproveitaria em particular ao artista. Quando se tem escripto sobre os costumes dos differentes povos, em que cada author e cada desenhador, umas vezes por más apreciações, outras por falsas informações discordam tanto, a todas essas duvidas elucidaria a photographia com o seu irrecusavel testemunho; e a ethnografia, não sujeita ao capricho de qualquer, facilitaria a história dos povos. A photo-esculptura é já hoje mais uma feliz applicação da photographia. […]

Dá ao paiz, e ao governo, as informações mais exactas do estado das colonias mais distantes, das suas construções, da sua cultura, produções, recursos e necessidades; evitando longos, inexactos, e inintelligiveis relatórios.

Reproduz as festas nacionaes, as formaturas militares, os homens eminentes da epocha, auxilia a polícia nas suas pesquizas, e apesar de ser a applicação ao retrato nos bilhetes de visita, a menos importante pelas suas consequências, é hoje um ramo de industria espantosamente desenvolvido.

Esta ultima consideração, que áquelles, que só conhecem a photographia pelo retrato, parecerá estranha, é uma prova, de que a arte se affastou do bom caminho, e que só os governos lhe podem dar hoje direcção, d’onde  não devera ter-se desviado.

É a photographia o meio rapido e preciso de communicar pelo desenho, no seculo em que a telegraphia electrica é um dos meios de communicar pela palavra”

Tratado de Photographia 1866, José António Bentes (1837-1912)

José António Bentes dirigiu a cadeira de Photographia, criada em 1864 aquando da reforma da Escola do Exército, pelo ministro da guerra Marquez de Sá da Bandeira

in Uma História de Fotografia, António Sena

As informações encontradas sobre J. A. Bentes e os seus escritos foram escassas – por preguiça, cansaço ou inexistência – fica a dúvida; e fica também a vontade de encontrar, caso haja, algum exemplar perdido deste tratado e do manual de photographia de 1864, também ele de J. A. Bentes.

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