Francesca de Prata

Francesca Woodman

Francesca Woodman

|o corredor era sombrio, subia e parecia que não tinha fim
eu era pequenina, de olhos esbugalhados, a tentar perscrutar o que me trazia a escuridão
as paredes, frias pelo tempo, estavam preenchidas de memórias que não eram minhas, memórias de outros, perdidas com a perda que só o passar de uma vida pode trazer
sempre quis ser capaz de superar os meus receios e subir aquelas escadas sem medo e ver quem habitava a escuridão de outrora; mas quando consegui subir os primeiros degraus, já eu era maior que a própria escuridão e já as sombras iluminavam o meu caminho, de tão brancas se tornaram. 
Escuridão, essa, passou a ser memória minha, memória que um dia será perdida como se perderam as memórias da parede fria pelo tempo|
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Ditos de Prata

“Querer fixar imagens efémeras é uma coisa não só impossível, como foi provado por uma investigação alemã bem fundamentada, mas também o próprio desejo de o querer fazer é uma blasfémia. O homem é criado à imagem de Deus e esta não pode ser fixada por nenhuma máquina humana. Quando muito o artista divino pode ousar, entusiasmado por uma inspiração celestial, num momento da mais elevada bênção, sob o superior comando do seu génio, reproduzir traços divinos dos homens, sem a ajuda de qualquer máquina”

in Pequena História da Fotografia, Walter Benjamin

Texto retirado do jornal Leipziger Anzeige (século XIX), a propósito da fotografia

Contos de Prata

Maria Clementina

Maria Clementina

 

tenho saudade de um tempo que ainda não vivi

é como que uma antecipação de algo que ainda não existe, algo que nem sei definir

tenho saudade deste tempo futuro, saudade e medo ao mesmo tempo, medo que ele não chegue, que me abandone antes sequer de me visitar

tenho saudade do quente reconforto do teu abraço antes de adormecer, saudade do beijo carinhoso ao acordar e de todas as palavras tortas trocadas

saudade de uma paz que não conheço, de uma música que nunca ouvi e do chilrear estridente dos pássaros que nunca vi

tenho saudade e meia do pão quente e do cheiro do teu perfume. tenho saudade das ondas do mar e da paisagem calma que não sei se existirá

tenho saudade de tanto futuro, que de tanta saudade já não sei mais que presente escolher – rosa, amarelo ou azul?

|são estranhos todos estes futurismos, quando vivi sempre de estímulos do passado, presa nas lembranças do que já foi e a respirar o que remediado está|

Persona Dramática mas Lúdica

Imagem

 

Helena Almeida

“Como no revivalismo de outras idades finisseculares, vivemos hoje generalizada crise de identidade, alastrada do individual ao social e marcada pelo demoronar de mitologias políticas quanto pelo eclipse de antigas crenças transcendentais. Não somos, certamente, o que consta das estatísticas ou registos oficiais. Não nos reconhecemos em quaisquer retóricas do poder instituído e progressivamente suspeito. Procuramos vislumbrar o rosto submerso do que possamos ser numa arte de múltiplas vertentes, com interpenetráveis sinais contraditórios, e originária de teorizações herméticas, senão mistificatórias. Ou onde raramente avulta a clareza de expressão, logo confundida em redes tentaculares de especulações confusionistas, conexas a inconfessados interesses mercantis.

Daí também o relativo olvido, o injusto apagamento mediático de personalidades criativas, melhor dignas de um destaque, que lhes é adiado ou ofuscado por cacafonias publicitárias de pretensão cultural, envolventes de outras gentes de menor valia”

Fernando Pernes