Maria de Prata

As Mulheres do Meu País, Maria Lamas

As Mulheres do Meu País, Maria Lamas

 

Ontem, finalmente, fomos conhecer a Maria e ouvir-lhe as histórias e estórias sem fim, de Portugal dos anos 40 e 50.

Maria era activista política, era feminista e era portuguesa.

O livro cativou, já se sabia, e ficou agendado outro encontro para lhe roubar mais palavras.

Anúncios

Daguerre e o Instagram

“Que delírio que seria o nosso se pudéssemos ver os progressos obtidos pela daguerreotipia dentro de cem anos, quando já não seja uma parcela da vida que se recolhe, mas a vida inteira que se anima e se desenrola perante os olhos maravilhados dos nossos descendentes! Nunca me declarei profeta, mas creio que estas coisas sucederão. Um relato, uma novela ilustrada por um daguerreótipo aperfeiçoado, dar-nos-ia uma série de representações da vida em que tudo nos aparecia mais claro, nítido, numa palavra, mais vivo. Isso seria a melhor das artes”

Champfleury, 1845

Daguisnta

Contos de Prata

by Maria Clementina

fotografia de Maria Clementina

 

“Estou sentada nesta dança, cansada de te tentar pôr a dançar, cansada de dançar sozinha.

Estou sentada nesta dança, à espera que me estendas a mão para uma valsa, tango ou rock.

No entanto, tu também estás sentado e não é nesta dança… estás sentado numa outra ou até mesmo em dança alguma; vejo-te as costas só e pressinto a pouca vontade que tens em te mexer; estás sentado, bem o sei, sentado nesse acto solitário que me deixa a mim a dançar sozinha.”

Retratos de Prata

retrato

s. m.
1. Imagem (de pessoa) reproduzida pela pintura, pelo desenho ou pela fotografia.
2. Imagem fotográfica. = FOTOGRAFIA
3. Semelhança.

Desde a antiguidade pré-histórica que a procura constante pela representação do “eu” é explorada, ora por narcisismo, ora por tentativa de imortalidade, ora por curiosidade, ora por uma infinidade de outras opções válidas. As formas de expressão desta necessidade são, também elas, variadas – existem retratos representados na pintura egípcia, no desenho sumério, na escultura e gravura grega – é uma necessidade transversal à maioria das expressões artísticas, com predomínio óbvio na pintura e na fotografia.

E se, numa relação foto-pintura, a pintura foi filha única, numa primeira instância, impondo as suas próprias convenções e regras; rapidamente muito do que construiu foi revolucionado pelo aparecimento da fotografia.
Das várias influências mútuas que nasceram desta relação,  uma houve que pretendo destacar – a noção de instante/consciência temporal, introduzida na pintura, após o espanto inicial desta característica fotográfica. Desta forma, torna-se comum a acção pintada, o congelamento de uma fracção de tempo, a representação morosa do imediato.
Para ilustrar esta influência fotográfica na pintura, confronte-se o quadro “Le Tub” de Degas com a fotografia “Marthe au tub” de Pierre Bonnard:
degastub

 

 

 

O instante fotográfico passa a ser tema explorado pela pintura – cria-se a cultura fotográfica.

Texto baseado em “Fotografia e Narcisismo” de Margarida Medeiros

 

 

 

Dia de Prata

Louis Jacques Mandé Daguerre

Louis Jacques Mandé Daguerre

19 de agosto de 1839 – O anúncio foi oficializado e a fotografia tornou-se domínio público.

 “Faça-se a luz!” Ouviu-se. E a luz foi feita para que com ela pudéssemos eternizar cada fragmento que nos compõe

 

Roma de Prata

romamor09

Algures em Roma
© Maria Clementina

“Ponho-me a olhar as fotografias. Conheço as caras e não as conheço, congeladas a meio de uma expressão com qualquer coisa de incompleto nelas. Não é que lhes falte vida, têm vida, falta-lhes uma parte do que são, no caso de lhes tocar toco papel, não carne e ainda por cima, em algumas delas, com um rectângulo de vidro a separar-nos. Só os mortos estão inteiros nos retratos, porque se tornaram retratos, são retratos, e o que guardo na memória vai-se desarticulando, diluindo, deixando de ter forma: gestos, atitudes, cheiros que se desvanecem lentamente como o perfume nos frascos vazios que conservam uma vaga aura adocicada de flores.

No caso dos vivos encontro fragmentos deles que me não chegam nem consolam. Olham-me desprovidos de voz e de espessura. Digo-lhes o nome e não respondem.
Digo
– Tu
e observas-me indiferente, sempre com os mesmos brincos, o mesmo penteado, a mesma blusa, a mesma idade que recusa os anos. Digo
– Tu
e nenhuma mão chega à minha cara, não respiras contra mim, não me procuras, aprisionada na moldura. Porque é que o teu peito não respira? Porque é que as tuas pernas não se enrolam nas minhas? Porque não sais daí? Será o mesmo, o teu nome? Ou será que foi o meu nome a mudar? Perguntas, perguntas. Cheio de perguntas sempre.
(…) Retratos.
Nós de pé nos retratos e portanto vivos. Conheço as caras e não as conheço. Congeladas a meio de uma expressão com qualquer coisa de incompleto nelas. Olham-me desprovidas de voz e de espessura. Não me sinto triste. Palavra de honra que não me sinto triste. Sentado a esta mesa vejo um avião chegar. E, de súbito, uma alegria inexplicável: acho que é por ter corpo e estar vivo.Corrijo: tenho a certeza que é por ter corpo e estar vivo. E o meu coração ou o despertador (um deles)

a bater, a bater. “

António Lobo Antunes, Retratos

*Roma – cidade invertida do que me move e comove*

Tratado de Prata

“Julgamos que nenhum dos leitores ignora, que n’este paiz a photographia é conhecida, pela maior parte como o meio mechanico de fazer retratos e paizagens, e considerada como um inofensivo brinquedo para os amadores, menos prejudicial ao paiz, do que cuidar d’essa politica pessoal, que serve de pasto aos inuteis d’esta terra. […]

As collecções completas de monumentos, antiguidades, obras d’arte, as cópias das mil riquezas guardadas nos museus, derramariam uma instrução geral, que aproveitaria em particular ao artista. Quando se tem escripto sobre os costumes dos differentes povos, em que cada author e cada desenhador, umas vezes por más apreciações, outras por falsas informações discordam tanto, a todas essas duvidas elucidaria a photographia com o seu irrecusavel testemunho; e a ethnografia, não sujeita ao capricho de qualquer, facilitaria a história dos povos. A photo-esculptura é já hoje mais uma feliz applicação da photographia. […]

Dá ao paiz, e ao governo, as informações mais exactas do estado das colonias mais distantes, das suas construções, da sua cultura, produções, recursos e necessidades; evitando longos, inexactos, e inintelligiveis relatórios.

Reproduz as festas nacionaes, as formaturas militares, os homens eminentes da epocha, auxilia a polícia nas suas pesquizas, e apesar de ser a applicação ao retrato nos bilhetes de visita, a menos importante pelas suas consequências, é hoje um ramo de industria espantosamente desenvolvido.

Esta ultima consideração, que áquelles, que só conhecem a photographia pelo retrato, parecerá estranha, é uma prova, de que a arte se affastou do bom caminho, e que só os governos lhe podem dar hoje direcção, d’onde  não devera ter-se desviado.

É a photographia o meio rapido e preciso de communicar pelo desenho, no seculo em que a telegraphia electrica é um dos meios de communicar pela palavra”

Tratado de Photographia 1866, José António Bentes (1837-1912)

José António Bentes dirigiu a cadeira de Photographia, criada em 1864 aquando da reforma da Escola do Exército, pelo ministro da guerra Marquez de Sá da Bandeira

in Uma História de Fotografia, António Sena

As informações encontradas sobre J. A. Bentes e os seus escritos foram escassas – por preguiça, cansaço ou inexistência – fica a dúvida; e fica também a vontade de encontrar, caso haja, algum exemplar perdido deste tratado e do manual de photographia de 1864, também ele de J. A. Bentes.